Cada vez mais só. Cada vez...

Eu não estou nos planos dela. Não faço parte dos planos de ninguém. Sequer tenho planos. Levo a vida nesse eterno piloto automático. Vislumbrando horizontes que eu nem sei se chegarão. Ela tem projetos. Sabe o que quer e o que vai fazer. Domingo a tarde, daqui a três anos... Tem os principais trajetos da vida nas mãos. Eu? Não enxergo meus passos e sinto um peso nos ombros.

 

A comunhão nunca fez muito parte de mim. Sempre tive um lado introspectivo. Não gostava de falar sobre coisas muito profundas da minha mente e meus sentimentos. Mesmo assim já disse bastante. Em inúmeras vezes, falei até demais. Apesar de tudo isso, sempre tive um ciclo com o qual convivia. Independentemente da solidão que sentia, havia sempre alguns conhecidos com que eu achava que poderia contar.

 

Mas agora é diferente. Repudio a imensa maioria das pessoas que me rodeiam. Não quero falar, não quero ouvir. Se pudesse escolher andar sempre só, o faria. Eu e minhas músicas, sem ouvir nenhuma voz. Eu e meu futebol, sem ter que me explicar. Eu e minhas bebidas, sem ninguém pra me cobrar.

 

Falo cada vez menos sobre mim, e quero ouvir cada vez menos sobre os outros. Os amigos que possuo – e que volta e meia se mostram ausentes demais pra receber esse título – me despertam cada vez menos confiança. Saber que os tenho me conforta cada vez menos. Talvez esteja enxergando que estou cada vez mais só. Mas sempre foi assim.

 

Talvez não seja tão ruim. É só questão de se adaptar. O que já deve estar acontecendo. Só os instantes com ela me confortam. Não fazem eu me sentir tão fora de sintonia com o mundo assim. A verdade é que, juntos, somos dois reclusos das relações. O calor do corpo dela me acalma. E um abraço nessas horas conforta muito.

 

Mas não importa. Eu sei que não estou nos planos dela.

Postado por Jean Laurindo às 14h26
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Hora de ficar só

Depois de pedir uma cerveja, sentou e relaxou. Há tempos já estava assim, despistando seus pais e o motorista, que desde os oito anos acompanhava a maior parte de seus passos – e que, àquela altura, já não tinha mais emprego. Agora era diferente. Tinha quase 15 anos e, de tanto ver seus amigos apavorando pelas ruas, quis sentir o gosto da liberdade também.

 

Com 12, vodka e cigarro eram acompanhamentos comuns depois da aula. Os discos que sempre carregava na bolsa preta – de couro, da Victor Hugo – faziam companhia ao pessoal durante tardes inteiras. No curso de inglês muitos a haviam dado como desistente. Mantinha seus dias assim, se dedicava ao agradável e dispensava o enfadonho.

 

Estava agora de costas para o dono do bar, sentada na cadeira giratória em frente ao balcão – dessas, sem apoio nas costas. Com os braços entreabertos e apoiando os cotovelos sobre o mármore, olhava o movimento na rua e a correria constante. Um princípio de coriza a atingia, fruto das cada vez mais constantes carreiras de pó.

 

Havia parado de fumar há alguns meses. O cheiro que ficava na roupa despertava conflitos demais em casa, e ela tentava amenizar as coisas em busca de algo mais próximo da paz.

 

Namorados, só dois nesse tempo todo. Alguns meses com cada um e só. Só durante o tempo suficiente pra atingir a fascinação e enjoar da cara do rapaz, a ponto de trocar os nomes. Na verdade, nem sabia se homem era seu ponto forte.

 

Por indiferença, havia tido umas experiências com amigas. Não achou de todo ruim, mas não ter alguém ávido por lhe possuir a desestimulava. Brincou umas vezes mais, e resolveu parar.

 

Agora só se excitava com quem dividisse seu mundo com ela. Alguém que captasse suas reflexões e dividisse conversas sobre os livros que leu teria boas chances de lhe arrancar a luxúria.

 

Mas não era isso que buscava àquela hora, naquele boteco. Assim que chegou, tirou os óculos escuros – que só faziam sentido por esconder as pupilas já dilatadas – e retocou a leve maquiagem no pequeno espelho do banheiro sujo do bar. Jogou R$ 10 no caça-níquel. Perdeu os créditos rapidamente, deu um tapa de mão aberta na lateral direita da máquina e sentou no banco.

 

Estava ali. Com a cerveja, relaxando. Era hora de pôr fim àquela estrada curta, de tão longa.

 

Ao se ver sem os amigos, sem o cigarro, sem o pó, só com a cerveja, achou que havia encontrado um motivo pra sair. Lembrou que seu cartão de crédito já estava bloqueado, então juntou umas moedas e umas cédulas amassadas pra quitar a conta.

 

Andou por uns 50 metros e chamou um táxi. Era hora de voltar pra casa. Pra onde, agora, achava que jamais devia ter saído.


"Atrás de emoções baratas, que a fizessem se sentir uma espoleta pipocando" (Cachorro Grande - Lili)

Postado por Jean Laurindo às 15h13
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