Diário de bordo nº 19020-8
Era meu aniversário, mas o relógio não estava nem aí pra isso. Exatamente às 6h48 ele despertou incessantemente como o faz todas as manhãs. Tentei alegar que era um dia diferente, mas não tive tamanho poder de persuasão.
O chuveiro não deu a mínima pro meu aniversário e permaneceu ou muito quente, ou muito frio – provocação que sempre faz em dias que já amanhecem com forte calor. A caixinha Tetra-Pak pouco se importou com minha data especial e me mostrou que não havia leite gelado. Como Nescau e gelo ainda não formam uma combinação no estilo de café e leite, fui conduzido a outras escolhas.
O ônibus nem deu muita bola pro dia 19. Atrasou e me fez mofar no ponto enquanto o esperava pra ir pro trabalho.
Quando parti deixei uma rosa colhida com carinho, mas que, de tão indefesa, ignorava a relevância da data pra mim.
Quando cheguei no trabalho algumas coisas pareceram ter voltado ao seu lugar. Havia um chocoleite gelado e sereno esperando por mim. Só aguardando pra me satisfazer. Havia um puta dum CD que piscava pra mim há tempos, me esperando. Havia uma dedicatória. Haviam imagens e declarações. De gente que eu convivo todo dia e de gente que não via há anos. De gente que é sincera, de gente superficial.
A Padaria não relevou minhas duas décadas comemoradas. Reservou pouco menos de um bolo e uma cuca não muito entusiasmantes. Deixei de lavar a louça em função do aniversário. O sol não me poupou e cheguei em casa transpirando como maratonista em fim de prova.
Quando voltei vi que a rosa já não estava tão fulgurante como quando a deixei. Mas ainda estava ali e, além de manter-se viva, mantinha também o significado da data.
Também sou assim. Já não tenho o mesmo tempo pela frente, tampouco reluzo com o mesmo vigor. Mas continuo trazendo comigo o sentido de tudo que falo e faço.
“Será que eu serei o dono dessa festa / Um rei no meio de uma gente tão modesta?” (Fernanda Abreu – É Hoje)
Postado por Jean Laurindo às 12h20
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Vinte
O Presidente da República era José Sarney. Renato Russo arrastava verdadeiras legiões em nos shows da Legião Urbana e comandava as rádios. Bandas como Titãs e Engenheiros o faziam companhia. Raul Seixas já definhava em função da diabetes e consumo em excesso de álcool. Mario Quintana ainda fumava seus cigarros em varandas de sua querência. O país enfim tinha uma constituição definida por uma Assembléia democrática. Ayrton Senna levantava seu primeiro título na Fórmula 1. O E. C. Bahia conquistava seu primeiro – e, até agora, único – título brasileiro de futebol e Seleção Brasileira não conquistava uma copa do mundo há 18 anos.
(...)
O Presidente da República é Luiz Inácio Lula da Silva. É, em tese, de esquerda. É de origem operária. Nas rádios algo como “piriguete” e “dança do creu” agrada uma boa parte. Quintana não respira mais. Nem Drummond. Hoje obras como “Aprenda os 10 passos para ficar rico” ou “como ser feliz: em cinco volumes” circulam nas mãos de muita gente. Um certo “homem de gelo” possui o título da Fórmula 1, com pouquíssima graça. O São Paulo FC virou Tri; virou penta. Assim como a Seleção de Futebol. Que hoje é, a rigor, terceirizada. Assim como ex-empresas estatais.
- -
O espaço que aqui representado por singelas reticências, sufocadas pelos parênteses, constituiu, em sua forma real, a construção de minha história.
Muita coisa mudou. E, apesar da minha relutância, não haveria de ser diferente comigo. O tempo vai formando e transformando muitas coisas e muitas concepções. Em tudo, e em mim. À exceção de algumas, inerentes ao tempo.
Estou mais velho. Completo duas décadas de vida. Entro na casa dos 20. É como se eu estivesse entrando num corredor que me levará diretamente aos 30 anos. Idade de homem feito.
Isso assusta. Mas não pode ser ignorado. Escondido, tampouco.
Então vou continuar na humilde tentativa de escrever uma história bacana; uma história que seja lembrada com orgulho e com fidelidade no futuro – seja por mim, seja pelos que participaram dela. Vou sem medo. Afinal, muita coisa mudou, mas certas coisas nunca mudam. E, apesar da piriguete e da auto-ajuda, Che continua acenando esperanças; Camus continua me deleitando com leituras maneiras; Raul Seixas continua a me orientar no meu som.
“Tempo amigo, seja legal. Conto contigo pela madrugada; só me derrube no final” (Pato Fu – Sobre o tempo).
Agora, porém: “Quero saber bem mais que os meus vinte e poucos anos...” ![]()
Postado por Jean Laurindo às 15h38
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Degraus que nos entendem

Quem hoje passa ali pode não reparar. Mas há mais ali do que uma construção funcional. O que hoje é caminho já foi destino; já foi cenário. O que agora é passagem pra um lugar qualquer, fora, há não muito tempo, caminho para o paraíso.
Cada degrau daquela escada presenciou cenas de um sentimento que poucos puderam desfrutar. Dotadas de um fascínio que nenhum altar seria capaz de lhe dar. Cada um deles foi parte do plano de esconder dos outros o que não se podia mais ocultar dos dois.
Dois que, agora, lhes deixam a incumbência de esquecer com o calor escaldante do sol tudo que viram sob o brilho cintilante da lua.
Degraus privilegiados. Assistiam de camarote cada troca de olhares, de beijos. O entrelaçar de mãos, as carícias no cabelo. Contracenavam em episódios que outros se espreitavam pra flagrar. Uns poucos conseguiram, mas não sentiram falta disso como os singelos degraus.
A gente pode até não crer. Mas sempre que o sol se põe eles esperam o casal que vinha se ver escondido; que fazia deles testemunhas de um sentimento nobre, deixado de lado tempos depois. E lamentam, decepcionados com os que puseram fim a tudo sem perceber seu valor.
Eles sentem falta do brilho dos dois. Mas concreto não pode chorar. Concreto é só concreto, embora já fora nuvens para os que ali sorriam com a sensação e situação. Enquanto tantos passam de forma tão fugaz, as lembranças dominam os degraus. E os protagonistas.
Mas cada degrau se mantém forte. Com vitalidade invejável e discrição total. Só quem os entende percebe a falta que aqueles momentos fazem. Não só aos degraus.
“Vou de escada pra elevar a dor” (Ana Carolina – Elevador)
Postado por Jean Laurindo às 20h04
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