.

Não sei chutar de três dedos. Não sei mexer no microondas. Não sei comer comida oriental e nem me comportar perante a uma mesa dotada de mais talheres do que minhas mãos podem abrigar. Não sei mexer em muitos programas de computador. Não sei me comportar com crianças e nem passar fio dental sem ferir a gengiva.

Não sei dar elástico. Não sei falar inglês. Não sei assimilar fracassos. Não sei reagir a elogios. Nem cortar as unhas da minha mão direita. Não sei achar a palavra pra dizer o que eu penso realmente. Não sei ficar quieto quando devo. Não sei desenhar. Não sei fazer batida. Nem caipirinha. Não sei nadar.

Não sei temperar carne nem fazer churrasco. Não sei paquerar patricinhas. Não sei agir sob pressão. Não sei consolar sem me envolver na questão. Não sei roer unha. Não sei fazer escândalo. Não sei distinguir cores nem tirar boas fotos. Não sei fingir condescendência. Não sei jogar paciência. Não sei esbanjar alegria.

 

Submerso à ignorância. Assim permaneço. Mas ainda sei muito bem tudo que eu não sei.

 

  

“Não sei se estou certo ou se estou errado, mas faço tudo o que eu digo e tudo o que eu faço” (TNT – Não sei).

Postado por Jean Laurindo às 22h19
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Outra pra ela

Ela pensa que não; eu finjo. Mas ela mexe com meus instintos. Eu perco o controle, esqueço os limites. E a olho com a cara deslavada de quem comanda o que faz. Ela parece acreditar. Eu reluto em confessar. Nunca o fiz. Mas ela me desequilibra.

Ela deita no meu colo em uma cena exclusiva, de tal forma que relegamos ao mar o papel de mero figurante. Por vezes me perco nos seus olhos. Por vezes, no corpo. Admito a fraqueza expressa na coragem. E quando calo é pela impressão de ser apenas passatempo fugaz pra ela.

Na real, não sei a melhor forma de demonstrar tudo a alguém tachada de fria e calculista. Como a convidar para um universo à parte e pedir permissão pra integrar o mundo de enigmas e charme que ela se mostra sempre que nos falamos.

E quando os óculos me privam de acompanhar os caminhos que seus olhos fazem tento usar do mesmo recurso pra inibir minha covardia em perguntar sempre mais; em desvendar os mistérios que ela traz; em convidar pra fazer parte de algo mais.

 

 

“E só de te ver, eu penso em trocar a minha tevê num jeito de te levar a qualquer lugar que você queira, e ir onde o vento for” (Los Hermanos – Último Romance).

Postado por Jean Laurindo às 15h09
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Enquanto eu não durmo

Nessa noite só queria que minha solidão me desse ao menos privacidade suficiente pra acender um cigarro e relaxar em paz. Ouvir meus sons favoritos, tomar algo que me vença e pôr alguns dos meus pensamentos em dia. Até minha mente cansar de me fazer de refém.

Por ora, queria um lugar menos popular. Um lugar rock ‘n roll, onde de fato toque rock ‘n roll. Queria um copo quase sem fundo, um cinzeiro e um canto escuro. Uma companhia qualquer, que me fizesse passar o tempo, não me faça perguntas e nem me atormente.

Queria mesmo é uma companhia. Talvez alguém em especial. Ou apenas um alguém especial. Queria uma companhia capaz de me purificar. Alguém que me tirasse dos meus labirintos e me fizesse percorrer os seus. Alguém que me levasse ao céu através do pecado.

Queria que o sol iluminasse agora e me tirasse dessa angústia que insiste em contaminar meu peito. Queria que os ponteiros do relógio não insistissem em se cruzar tão devagar. Queria que meu querer não oscilasse tanto e tão rápido. Queria você.

 

“Ela apareceu, parecia tão sozinha. Parecia que era minha aquela solidão” (Engenheiros do Hawaii – Piano Bar).

 

§ it’s been a hard day’s night §

Postado por Jean Laurindo às 19h38
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Versos do réveillon

 

Continuo com a certeza de que aquela tarde foi excepcional.

A cerveja gelada descia bem; os churros estavam atrasados e o papo fluía normal;

As meninas passeavam na orla da praia; turistas desfilavam devagar.

Tudo mais corria normalmente, sem muito argumento pra julgar especial.

 

Mas alguns olhares cruzados convidavam no silêncio e disfarçavam ao cumprir a missão.

A roda de amigos; o papo furado e a displicência também faziam o dia atípico.

Do tipo que não se tem quando se programa; de um estilo único;

Que até agora lateja na minha lembrança e rememora um sabor singular.

 

Sem medo da rima pobre, digo que aquela tarde foi pra lá de especial;

Por reforçar as parcerias fortes; pelos instantes, pelo beijo descomunal.

 

Naquela tarde o tempo também agiu; mas não conseguiu desmanchar os momentos.

A cerveja esquentava, os turistas dispersavam-se, a chuva caía.

Mas tudo manteve o encanto; o valor de tarde anormal.

Tão anormal que à noite pedi um beijo pra cristalizar o sabor do dia.

 

Vou levar comigo, com certeza, tudo daquela tarde excepcional.

O sabor do beijo meio-clandestino; a honra da parceria e o tempo que vai me fustigar.

Essas tardes, eu sei, não serão o meu futuro;

Mas mais tardes como essas viriam bem a calhar...

 

 

“Mas nada vai conseguir mudar o que ficou (...) Estamos indo de volta pra casa” (Legião Urbana – Por enquanto).

Postado por Jean Laurindo às 00h17
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