Eu, aos 16

Um cara tranqüilo, sereno e despreocupado. Que tentava sorrir, mesmo com a certeza de que a vida não permite estas regalias a quem a conhece. Jovem calmo, caminhava sem receio e sem pudores. Boné virado sobre um cabelo revirado; um princípio de barba ao seu bel prazer e pensamentos que não iam além do presente.

Camiseta de banda de rock, cara de mau e nenhum interesse em parecer simpático. Eu, aos 16, fazia da humildade minha bandeira. Fazia das horas solitário, trancafiado em meu quarto, momentos de bem estar. Não fazia questão de alguém ao lado dizendo o que fazer; sentia falta de carinho e de atenção. Eu, aos 16, lamentava despedidas, mas as via  também como o renascimento da liberdade.

Terno bem-alinhado, sorriso sincero e benevolência peculiar. Paciência e simplicidade conduziam-me aos 16. Na fila do gargarejo dos shows de rock ou na pista dançando valsa, tive momentos marcantes. Meio rebelde e meio tiete, eu, aos 16, estampava meu sorriso pelas coisas mais simples, embora conhecesse muito bem a atrocidade oculta na realidade.

Eu, aos 16, é bem verdade, usava desilusões como pretexto para inconseqüências. Aprenderia eu, mais tarde, que as inconseqüências podem ser muito bem-vindas. Agia com as mulheres de forma recíproca. Mas se hoje algum arrependimento resta, fica a consciência de que ao menos compreendido fui. De fato, aos 16 não teria bagagem para discernir questões tão profundas.

Eu, aos 16, era valente, embora imerso à covardia. Era doente, apesar da aparência sadia. Era sorridente, ainda que oriundo de decepções. Eu, aos 16, estava sempre presente; batia de frente com quem a fim estivesse, mas destinava carinho a quem se propusesse. Não temia opiniões e agia como pensava. Eu, aos 16, me admirava.

O tempo que afasta os meus 16 anos do presente foi o suficiente pra me mostrar que aquela época foi, de fato, especial. A lembrança exata daqueles dias me traz a mente que, apesar de passado, o que foi vivido entrou pra história. E deve ficar nela. Eu, aos 19 e ¹/², quero conservar o encanto do momento atual com o daquele garoto insolente de apenas 16. 

 

 

“O tempo passa e nem tudo fica, a obra inteira de uma vida; o que se

move e o que nunca vai se mover” – (Nenhum de Nós – Sobre o tempo).

Postado por Jean Laurindo às 14h45
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