Diário de bordo nº. 12.060-7
Caminho vagarosamente. É noite, e a escuridão tranqüiliza como nenhuma luz poderia fazê-lo melhor. O relógio, o cruel, esse frígido dono da vida, se aproxima demais do limiar imaginário que separa o hoje do amanhã. Uma leve brisa juntamente com o avançar das horas servem de empecilhos às pessoas e nada há nas ruas além dos meus pensamentos, os quais já servem para rechear esta vereda.
Os únicos sinais de vida além da minha respiração são os cricrilares dos grilos – que, por sinal, parecem estar em toda parte. Por um instante me liberto dos meus pensamentos e tento me equilibrar nos meio-fios – coisa que faço desde que tinha cerca de nove anos –, como se isso fosse me levar de volta àquele tempo já distante e brilhante. O encanto e a ingenuidade ficaram pra trás, mas percebo que essa espécie de distração nada mais é do que uma breve representação do equilíbrio necessário nas adversidades do cotidiano. A ingenuidade é a base da malícia.
Estar só é o caminho mais breve para a auto-compreensão. Entretanto, me deparo, pra variar, indagando sobre todos os porquês a minha volta, tal como fazia quando criança. A máxima de que “a vida não é uma resposta” parece não me consolar, como, aliás, essas situações mundanas nunca me conformaram. É só a falta de um objetivo que me leva ao desejo de desistência. Sempre me levou...
Mas a maior representação de aprendizado da noite está acima de mim. Como, aliás, esta noite tudo parece estar. Isoladas luzes iluminam boa parte do caminho, ofuscando, assim, a visão e a percepção detalhada de tudo. Pena não serem apenas as luminárias que produzem esse efeito ao longo da vida. A luz mais clara é a que cega e impossibilita a visão do óbvio, do próximo e do real. Mas se esconder dela não resolve, afinal ela encontra cada um de nós, mas cedo ou mais tarde – por mais que o cedo possa parecer tarde e vice-versa. Assim, quanto mais contra a luz se anda, maior a ocupação e representação da própria sombra, que é o reflexo material mais próximo da alma...
[O amanhã é o hoje que não teve tempo de terminar...]
“Baby, essa estrada é comprida, ela não tem saída; é hora de caminhar pra ver o galo cantar, pro mundo inteiro escutar.” (Raul Seixas | Cachorro Urubu).
Postado por Jean Laurindo às 14h44
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