Viver o amanhã!

        Viver intensamente o hoje: puro clichê. Pra que sorrir plenamente agora se eu não sei por quê. Na real, a juventude cobra de você o amanhã aniquilando o hoje. Todos criam suas perspectivas. Expectativas futuristas pra que se o futuro pode não existir? A cada dia seu tempo é depositado prioritariamente em preparação para um incerto futuro. Privam-nos da degustação do presente que passa feito uma locomotiva enquanto estamos soterrados na azáfama diária sucessiva constante.

        Observe o contexto ao seu redor. Pessoas são valorizadas, via de regra, somente após a morte. A transgressão para o além parece revelar o valor que, na verdade, sempre existiu, porém antes era ignorado. As críticas aos jovens parecem ser incineradas quando este se torna um “bem-sucedido” adulto responsável. A faculdade é a preparação para o futuro, para o que ainda virá, mesmo que as maiores realizações ocorram no transcorrer dela. Em geral, a juventude – ou ao menos a parcela sonhadora dela – não vive o hoje, tem de viver o amanhã.

        Nossas vidas são filhos póstumos das experiências e emoções de hoje. Mas a sociedade comprime o hoje como esboço do amanhã. Aborta o presente em prol do futuro, como faz com seus oriundos bastardos.  A preparação e a expectativa sucumbem a plenitude e o encanto de cada único momento. E dessa forma passam-se gerações. Pessoas transformadas em engrenagens que movimentam um sistema arcaico e falido. Subalternando, assim, emoções, princípios e valores humanos que os opressores juram, hipocritamente, defender.

        Nesse contexto segue aqui mais uma mente frustrada com isso, mas que não consegue “fazer verão” com sua discordância ideológica. O fato é que, hoje o futuro me atormenta como sempre atormentou, mas o presente já não tem o mesmo charme de outrora. Mas mesmo assim, acoplado ao passado e integrando o restante, esse covarde tachado segue tentando, cada hora por um lado, cada lado de uma forma, a procura do extremo ideal, pois o justo meio-termo é a forma mais fácil de desagradar a todos.

 

 

“Eu sou o cara cansado de correr na direção contrária sem pódio de chegada ou beijo de namorada (...)”
(Barão Vermelho | O tempo não pára).

Postado por Jean Laurindo às 14h37
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...

        Já cansado de ver o mundo lhe dar as costas, ele se encontrava ali, estático, atônito. Na mesa de um bar qualquer, se perguntando qual o preço da liberdade; e o qual o real valor dela. Lembrando vagamente de cada sonho não realizado, de todas as expectativas frustradas e da relevância disso tudo. Seu poder de reflexão já não era o mesmo de outrora, e ele não sentia falta alguma daquilo. Uma bebida forte, um cigarro e um aperto no peito não o abandonavam.

        O homem era capaz de ver cada chaga em seu coração, como um fluxograma de decepções. Entretanto, dessa vez era diferente. Ele não via mais motivos e não queria estar ali, sendo parte desse contexto ridículo e medíocre que o acompanhara até aquele instante. Não foi uma mulher e não foi a liberdade; não foi uma frustração e nem a conquista de um sonho; mas era a efemeridade da vida que o fazia refletir sobre isso tudo e desejar partir. Porém, mais uma vez, a covardia virava protagonista e não o permitia concretizar o que a melancolia o instigava. Mas dessa vez seria diferente. Sem explicações, sem razões, mas seria diferente...

        E o mundo emudeceu diante de seus olhos. As fracas vozes que escutara se desfizeram no próprio ar. E diferentemente do que ouvia desde criança, não havia luzes, não havia filmes, não havia nada além de um silêncio mórbido e amargurado e uma expectativa, algo que há muito não sentia. Finalmente sua jornada real iniciara e todas as minúcias da vida ele poderia, enfim, abandonar. Foi caminhando pela escuridão, até seu destino. Não havia mais melancolia; não havia mais frustração. Não havia nada além dele próprio. Seus olhos brilhavam novamente. Era o caminho para o início. Apenas disse adeus, e partiu...

 

 

 

“Vou te encontrar vestida de cetim, pois em qualquer lugar esperas só por mim... E no teu beijo provar o gosto estranho que eu quero e não desejo, mas tenho que encontrar. (...) morte que talvez seja o segredo dessa vida.” (Raul Seixas | Canto para minha morte).

Postado por Jean Laurindo às 15h49
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